A ARTE DE SE CONFIAR POR INTEIRO EM UM PERSONAGEM

22:36:00




Atualmente, as histórias são publicadas pelo ponto de vista de um único personagem, pelo ponto dos protagonistas ou por uma terceira pessoa, narrando tudo. No entanto, sempre há aquele personagem que não podemos confiar por inteiro, que deixam resquícios nos fazendo duvidar da veracidade daquilo que está contando.

Voltamos um pouco ao passado, acredito que há muitas pessoas que conheçam Machado de Assis, devem ter ouvido pelo menos uma vez na escola. Uma de suas obras (se não a) mais famosa é Dom Casmurro. Resumindo bem rápido, nela temos o Bentinho contando a história de sua vida quando mais novo. Quando criança ele era apaixonado por sua vizinha e amiga, Capitu, mas devido a uma promessa de sua mãe, iria para o Seminário tornar-se padre, lá ele conhece Escobar, que acaba tornando-se um amigo e desistindo de ser padre também. Após tantos acontecimentos, ele acaba conseguindo sair de lá, volta para a sua casa e reencontra Capitu, por quem ainda é apaixonado e no fim os dois se casam. Até aí, aparentemente, tudo ocorre bem, mas, em um determinado momento da história, Bentinho começa acreditar que Capitu está traindo-o com seu amigo, Escobar. Começa a sentir ciúmes e inclusive chega a afirmar que seu filho é, na verdade, filho do seu amigo. Aos poucos esses sentimentos vão corroendo-o por dentro, tornando-o amargo, frio e solitário. A pergunta que não tem a resposta do Machado, mas que, ainda, permanece até os dias de hoje é “Capitu traiu ou não o Bentinho?”

Se ler como um leitor neutro, apenas observando, você consegue criar uma opinião própria sem ser induzido a acreditar em que o protagonista está dizendo. Mas a partir do momento em que você começa a se envolver com a história, começa a confiar demais no personagem e naquilo que está narrando. Essa questão tem sido assunto de temas de teses, dissertações, trabalhos, debates, porque como confiar em um personagem que possui um sentimento como o do ciúme, fazendo com que a pessoa fique paranoica, obsessiva, criando coisas onde não existe, ilusões da própria mente. A princípio, durante a história de Bentinho, se você não ler com calma, analisando e observando tudo o que ele diz com cautela, você acredita que houve traição. Mas é possível ver resquício que ele estava ficando louco de ciúmes, obcecado por Capitu e começou a ver coisas que não faziam sentido. Por isso é perigoso confiar em um único personagem, só temos o ponto de vista dele, a opinião dele da história, não conseguimos ver outros pontos de vista e nem a história como um todo.

Outro exemplo é a da série The OA (falei um pouco dela Aqui). Nela temos Prairie, uma menina cega que sumiu, anos mais tarde foi encontrada, mas com a sua visão recuperada. Ninguém sabe como ela voltou a enxergar, ninguém sabe onde ela esteve. No decorrer da série, ela começa a contar toda a sua história, mas até que ponto pode ser verdade o que ela disse? Até porque há certos momentos, principalmente, nos últimos episódios, levam a crer que ela pode ter inventado tudo. Deixando essa questão no ar.

Há tantos outros personagens da literatura que não são confiáveis. Mais um exemplo: Lolita, de Vladimir Nabokov. A escrita do autor é maravilhosa, no entanto, a história chega a dar náuseas, porque temos a versão de um velho escrevendo suas memórias da prisão contando que se apaixonou por uma menina muito mais nova, casou com sua mãe para ficar mais próxima dela, depois a matou para poder ficar com a garota, e ele passa o livro inteiro tentando convencer o leitor que ele não é uma pessoa horrível e quem provocou tudo isso, seduzindo-o, foi a menina. O que me deixa mais brava é que há pessoas que acreditam na versão dele, culpam a guria por tudo, dizendo que foi ela que provocou o velho e há aquelas que ainda romantizam a história dos dois. (Ah, esse é um outro assunto que quero vir falar aqui, sobre a romantização de história com relacionamentos abusivos e o machismo impregnado por trás).

Enfim, personagens como Bentinho ou Prairie consegue nos envolver com suas histórias, induzir muitas pessoas a acreditar naquilo que está contando sem nem questionar. É um dos motivos de Dom Casmurro ser tão estudado. Não temos as respostas do autor para as questões que ficaram em aberto. Não sabemos de fato ele queria em alguns pontos. E, no caso da série, por exemplo, os próprios criadores fizeram a personagem principal ser duvidosa. Fazendo propositalmente que questionássemos a veracidade daquilo que está contando, afinal, de certa forma, a história é surreal e chega a ser absurda.

Confiar em um personagem é acreditar em sua história, crer que tudo o que ele está narrando aconteceu. E o certo seria ter uma visão completa dela, o ponto de vista de todos os personagens para somente depois poder tirar as próprias conclusões. Ainda é aquele ditado empregando aqui “nunca julgue um livro pela capa”, no caso seria mais um “nunca julgue uma história pelo ponto de vista de um único personagem.”


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2 comentários

  1. Ler Dom Casmurro e descobrir sobre o narrador questionável muda nossa interpretação sobre todas as leituras que vierem a seguir. Pena ser tão mal trabalhado na escola esse aspecto do narrador :/ Ótimo post.

    Bjj
    Mari Siqueira (http://sobreamorelivros.blogspot.com)

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    Respostas
    1. Oi Mariana, obrigada.
      O narrador questionável muda completamente nossa interpretação de todas as próximas leituras e nos faz pensar nas antigas, também.
      Infelizmente é como tu disse, deveria ser trabalhado melhor na escola, poderia mudar tanta coisa para os leitores.

      Bjo
      Jéssica

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